Ana Clara Fabrino escreve com a paciência de quem aprendeu a ouvir antes de falar. Seus textos andam nas cores todas sem se perder — do conto denso ao ensaio lírico, do poema ao fragmento — sempre com o olhar de quem sabe que a história dos outros também é a sua.
Ana Clara Fabrino formou-se em economia, filosofia e jornalismo entre São Paulo e Santiago. Passou pelos cadernos do O Globo e do Jornal da Tarde, dirigiu pesquisa editorial na Editora Abril e na Editora Globo, e assessorou a Secretaria de Cultura de São Paulo na gestão de Marilena Chauí.
Chegou à ficção pelo caminho mais longo — e por isso escreve como quem já viu o mundo de muitos ângulos antes de decidir contá-lo. Seus textos carregam a precisão de quem passou décadas observando o comportamento humano, e a liberdade de quem finalmente escolheu a forma mais honesta de dizê-lo.
O capim era alto e os campos largos. Capim que mais parecia uma cabeleira ondulada e amaciada pelas carícias do vento que chegava aos finais das tardes. Uma e outra árvore, perdidas, soltas no meio do cerrado imenso e silencioso onde apenas ouvia-se o sibilar das cobras e o canto triste dos pássaros à procura de seus ninhos.
Quando o carro se aproximava destas terras sentia-se o cheiro das férias; cheiro de mato, de esterco, de frutas, de comida cozinhada a fogo lento no fogão a lenha, do café secando ao sol e o agradável som das ramagens da macaúba.
Dormia-se em paz entre o silêncio, os odores do mato e o jardim que circundava a casa. Era bom, muito bom e tão diferente da cidade, sempre tão opressora, exigente e monótona.
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O tempo tem seus caprichos, às vezes parece lento, às vezes dispara. Assim como a memória que ora guarda, ora descarta e, muitas vezes impregna, gruda em nós como cicatriz que não desaparece jamais.
Há uma qualidade particular na luz de outubro que me faz pensar em tudo que não disse — e em tudo que foi dito sem que eu pedisse. As palavras que chegam tarde têm um peso diferente. Chegam quando já não há mais onde pousá-las.
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